Eu avisei. Eu me avisei. Não sai da cama fica bem aí. E escuto? Quando a cabeça acorda assim desse jeito gritando boa coisa não dá. Não deu. Não escutei. Não dei ouvidos. Não sou de dar ouvidos. Os ouvidos são meus os dois e não dou para ninguém. Muito menos para mim. Não me dei ouvidos. Deu nessa.
Então. Levantei, e saí. Com a cabeça assim, desse jeito. Não deu outra. Eu avisei. Deu tontura nos olhos a cabeça embaçada a calçada faltando para o pé que já pesa pesado demais e um passo só mais um passo é um arrasto socado o peito na pedra do chão olha a mão e a outra e são duas as minhas que esticam e segura eu digo e aviso para mim segura a roda gigante girando e esse vento nublado e agora?
Não tem nada de novo.
O suor quase frio veio só um pouco antes.
E eu caí.
Já sabia. Com a cabeça assim. Não dá outra.
Então. Levantei, e voltei. Com um tombo um desmaio assim desse jeito tem mais o quê para fazer? Eu bem sei.
Voltei e logo avisei vai lá, deita volta pra cama. E escuto? Os ouvidos são meus. Não dou para ninguém. Vim logo escrever.
Não deu outra.
Com a cabeça assim desse jeito o jeito é logo escrever.
Eu pensei, só um pouco antes do suor quase frio. Volto logo para a casa e sento e escrevo. Escrevo tudo isso aqui e tiro da cabeça, essa dor.
Escrever é o remédio para tanta enxaqueca. Eu disse em voz alta nem tão alta mas deu para ouvir.
A pedido das queridas Fernanda Grigolin e Karina Francis Urban, da Publicações Iara, a escritora (e que escritora!) Adrienne Myrtes escreveu sobre o EU CÍNICO.
Eu aqui da cama fiquei todo lisonjeado, todo besta todo bobo, é assim que diz. Também, olha só o que ela, a Adrienne, disse, e escreveu.
‘EU CÍNICO’, de Luis Rafael Montero
Breve lucubração a respeito do cinismo ou da minha conversa com as histórias narradas.
por Adrienne Myrtes
‘Todo mundo tem uma história para contar.’
O negócio é começar.
‘Haja luz.
E começou. Assim.
Antes da fumaça.
Antes de tudo.
Antes do cigarro cadê meu cigarro?’
Não adianta embaçar, plantar fumaça, o negócio é começar e recomeçar se preciso for.
‘E digo essa história, se é história se eu que digo, como ouvi e ouvindo como disse imaginei pensei, larga os adjetivos e se joga nos verbos, fica difícil.’
Na dificuldade de assimilar a vida, as histórias se impõem feito o sol nosso de cada dia. Invadem frestas, nossas janelas, olhamos através delas. Das histórias. Das narrativas que inventamos para saber quem somos.
‘Escrevo pouco. Não. Não escrevo nada, eu boto palavras, e isso a última frase pode até parecer uma galinha escritora, já pensou, botando palavras os ovos para o nosso almoço, ou café da manhã, tudo depende do caso da cultura de onde quer que você nasceu ou viveu ou simplesmente se deixou ficar e foi passando o tempo.’
Quanto tempo nós temos para ouvir as histórias dos outros? O quanto contamos com o tempo? As histórias. Contá-las é se esvaziar. A história do filho escoando a do pai. Repensando os papéis amassados. O que é ser pai? O que vem a ser filho? Tudo se esvaziando, esvaindo-se. Indo adiante sem saber muito bem para aonde. É assim no tempo que criamos, na vida social que desenvolvemos ou que nos esquecemos de desenvolver. Retrocedemos por não querer ceder, por apego à individualidade. Pode haver dualidade maior que essa? A vida não consegue ser uma coisa só.
‘Ser pai é o melhor jeito de esvaziar alguém, nesse caso um homem, é uma baita cagada, das boas, para ver como tudo (duvido!) tem algo de bom. E esvazia, tudinho. Começando pelo saco. Pai é isso: um saco esvaziado, ou vazio ou o adjetivo que for. E olha eu achando que sei alguma coisa, dizendo é atrás de é, como se tivesse certeza disso ou daquilo.’
Após vinte e um séculos de era cristã nos surpreendemos sabendo cada vez menos. Esvaziamos a caixa das certezas. Fizemos brinquedo de tudo e quebramos os brinquedos, feito crianças querendo descobrir. Crianças insensatas e órfãs que nos tornamos. Independente de Antístenes de Atenas, todo filho é cínico em contraposição ao pai, porque na juventude a natureza grita. Cala-se na velhice. A juventude é uma doença que o tempo cura, e a velhice é um estado que se impõe, feito as histórias que contamos para nos manter acordados.
‘Melhor mesmo era a moça contar, eu sei eu sei que não dá, agora ela ficou vazia perdeu tudo e não tem história nem nada.’
A vida é uma história a ser contada, desenhada se necessário se fizer. O entendimento ou a falta dele se dá pela dificuldade de comunicação. Nossa vida moderna é plena de ruídos, riscos, apelos. Apelar para quem na necessidade de falar, de se contar? Para a rede social? Poucos conseguem dormir com um barulho desses. E a concentração necessária para ler os olhos alheios fica perdida on-line, equilibrando-se em fio tênue, caminhando pé ante pé, na velocidade da luz que já não é a do sol. Porque o sol fere, agride, chama pra vida. Começa toda história. Começa a história toda.
‘O sol. Quem começou foi ele. A culpa é dele é dessa história do sol, desse começo assim. Botaram logo o dedo na luz do mundo e começou. Sem antes, sem nada nem aviso ou introdução.’
Aviso aos passageiros: Ao entrar nesse livro verifique se seus pés conseguem pisar no ar. Porque essa história é assim, um pulo dentro do seu próprio poço. Vazio. O aprendizado de caminhar em círculos para recomeçar todos os dias. E a história afinal, quem conta?
‘Fora esse outro aí esse sujeito que só escreve e escreve, quê isso?, para quê? Tem que documentar. Tá certo. Tem que, doutor. Esse sujeito deve ter cada história para contar, com o tanto que escreve e escuta. Deve ter. Tem que ter.’
*Os trechos em itálico pertencem ao livro.
Adrienne Myrtes, que também é artista plástica, publicou o livro de contos: A Mulher e o Cavalo e outros contos (Editora Alaúde, EraOdito Editora, 2006), e o romance: Eis o mundo de fora (Ateliê Editorial, 2011) que recebeu o Prêmio Petrobras Cultural 2008/2009. O site da moça é esse aqui ó: adriennemyrtes.com.br
TEM MAIS: o EU CÍNICO está no sorteio de páscoa da Loja da Iara, junto com dois livros poderosos, Hotel Trombose (Felipe Valério) e Retratos da Garoupa (Fernanda Grigolin). Para participar é só ir lá no facebook, clicando na imagem.
Quando nasce um bebezinho também nasce uma mãe. Gosto sempre de começar assim. Quem começa, assim, é ela, a enfermeira-professora desse curso que inventaram para mim e agora tem que fazer. Dois sábados, coisa pouca coisa rápida. Curso para gestantes. Curso oferecido pelo hospital. Oferecido por oitenta reais a aula. Coisa dela, da mãe que vai nascer logo mais. Coisa que começa cedo, para mim muito cedo, às oito horas da manhã. Cedo demais. E a aula, a primeira começa logo assim. Do jeito que ela gosta. Quando nasce um bebezinho nasce também a mamãe.
Não gostei do começo. Podia ser melhor.
A maternidade do Hospital Santo Domingo passou por uma reforma e está linda prontinha e completa para atender vocês e seus filhinhos. Centro obstétrico, vinte e cinco leitos, unidade neonatal, berçário, UTI se deus quiser não vai precisar mas nunca se sabe como o bebezinho vai nascer e se precisar, tem segurança vinte e quatro horas, tudo no quarto andar. E isso tudo logo às oito horas da manhã, no primeiro sábado do curso que está bem longe de acabar.
Podia ser pior. Podia ser domingo. E domingo é santo, tem jogo do Timão.
Estou com fome.
A gente acabou de chegar.
Tem almoço?
Tem. Depois mais tarde. Fica quieto deixa eu escutar.
Quantas de vocês farão o parto aqui no Santo Domingo?
Só me falta essa, a menina minha filha nascer logo no domingo. Tem jogo do Timão.
Eu. Aqui.
Ela, de mão jogada para cima.
Você tá de quanto tempo mamãe não pode ser sete meses e esse barrigão são gêmeos não pode ser só um bebezinho e desse tamanho? Essa criança vai nascer aqui, a qualquer momento.
Ela, a que inventou tudo isso esse curso para mim, vai nascer aqui. No Santo Domingo. Ela e minha filha. O bebê e a nova mamãe. A qualquer momento. Ainda bem que hoje é sábado.
Tem mais alguém?
Tem. Olha as mãos para o alto.
Ela, e mais ela, mais aquela e mais uma.
Se eu ainda sei contar, são cinco nascimentos, só aqui.
A equipe do Hospital Santo Domingo é altamente qualificada e capacitada para atender vocês mamães e seus bebezinhos, antes durante e depois do parto.
Eu contei. Cinco bebês cinco novas mamães. Só aqui. E vai ter gente suficiente médico enfermeira segurança vinte e quatro horas para cuidar de toda essa gente chegando assim no mundo, de uma vez?
Médicos obstetras e neonatologistas, enfermeiros técnicos de enfermagem fonoaudiólogos fisioterapeutas especializados, e segurança vinte e quatro horas. Se deus quiser tudo vai dar certo.
Passou meia hora e a aula o curso, parece, nem começou. Meia hora. Parece mais. A enfermeira-professora até começou e falou do bebê do nascimento da mãe. E depois só propaganda, nosso hospital equipe qualificada estrutura completa maternidade modelo médicos e segurança vinte e quatro horas, a UTI não vai precisar.
Se deus quiser.
Que horas são?
Quinze para as nove.
Essa hora não vai. Deus não quer que passe.
Ela entende.
Vai fumar um cigarro. Vai.
Ela sempre me entende. Do jeito dela, sempre entende tudo.
Levanto. E ainda deu para escutar e se deus quiser de dois a três dias depois do parto a mamãe e o bebezinho vão para casa.
E o papaizinho?
Vai fumar um cigarro. Vai.
Vou. Se deus quiser esse não vai fazer mal.
Começo o cigarro.
E penso para mim.
Fala tanto de deus, essa enfermeira-professora. Parece pastora.
Deus fez deus sabe deus cria vida, aconteceu deus quis assim. Deixa logo nas mãos de deus, não precisa hospital Santo Domingo vinte e cinco leitos enfermeiras médicos especialistas especializados maternidade com tudo que a mamãe e o bebezinho precisam segurança vinte e quatro horas. E tem UTI. Vai saber o que deus quer dessa vez, na nossa vez. Deus queira que saia tudo bem. Isso é o que eu quero. E eu não sou o próprio deus?, eu não posso eu não fiz e criei uma vida? Minha filha. Vai nascer. No Santo Domingo, foda-se o jogo do Timão. Que venha a qualquer momento. Que comece.
Eu penso e digo para mim.
Quando nasce um bebê também nasce um deus.
É assim que começa. Muito melhor.
Ela devia começar assim.
Gosto mais.
E termino o cigarro.
Voltei.
Quieto.
Quem fala e continua falando é a enfermeira-professora. Alguma coisa sobre o bico do peito amamentação se deus quiser o bebezinho vai pegar vai mamar e não precisa cerveja preta para melhorar o leite.
Não dou tanta atenção.
Tá pensando no quê?
Ela perguntou.
Ela realmente perguntou isso.
Tá pensando no quê?
Nada. Presta atenção ela tá falando.
O bebezinho precisa de leite a cada três horas lembre de limpar bem o bico do peito é um momento especial da mamãe com seu filho e mais ninguém.
O papai aqui nada.
Fala vai. Tá pensando no quê?
Ela sempre entende.
E eu falo.
Pensei no começo, na minha mãe no meu nascimento em você e no começo dessa nossa história toda, pensei naquele dia já era madrugada você pediu acende o cigarro eu acendi nós dançamos beijamos e você lá em casa, pensei no começo do sexo na primeira transa sem camisinha extremamente responsáveis que somos todas as outras as transas também, todas sem camisinha seja o que deus quiser. E o começo dessa gravidez da nossa filha, da nossa vez.
Fumei um cigarro e lembrei pensei tudo isso.
Um cigarro só isso?
Pensa só.
Eu falo nem sei se ela dá muita atenção.
No começo dessa aula quando a enfermeira-professora disse quando nasce o bebezinho também nasce a mamãe. Depois falou aquele tanto de deus que ele faz que ele cria e ele cuida de tudo. Pensei em outro começo. Para essa nossa história toda. Gostei mais.
O CÍNICO apoia. O HOMEM QUE VIVIA NA CAMA, também.
E eu, já assinei.
Abaixo-assinado Movimento em Repúdio ao Fim do Programa Entrelinhas
São Paulo, 9 de março de 2012.
Ilmo. Sr. JOÃO SAYAD,
Diretor-Presidente da Fundação Padre Anchieta
Nós, abaixo assinados, escritores, atores, editores, artistas em geral, leitores e telespectadores, vimos repudiar a decisão da TV Cultura de pôr fim ao programa Entrelinhas, um espaço nobre, desde 2005, na divulgação de autores e livros, solicitando, assim, a volta do programa à grade da emissora.
Não entendemos por que a diretoria da TV Cultura, insistentemente, sempre que pensa em reformular a programação, decreta o fim – ou limita a atuação – de programas como o Entrelinhas e, também, o programa Metrópolis, ambos referência e exemplo do tipo de excelência que uma rede pública de televisão deveria proteger e, sempiternamente, lutar por sua permanência.
O Entrelinhas era um dos raros programas na televisão brasileira em que a pauta principal é a literatura. No momento em que acontecem diversos festivais e festas pelo país, em que a Presidenta Dilma diz que lê um livro por semana e em que os escritores, sem exagero, se vêem reconhecidos como profissionais, não compreendemos a razão pela qual a Fundação Padre Anchieta nos fecha a porta, impedindo que formemos novos leitores – muito mais do que novos telespectadores.
Quantos escritores e escritoras importantes, de todos os gêneros e vertentes, passaram pelo Entrelinhas desde seu começo? Quantas obras literárias se sentiram, como nunca, devidamente lidas e respeitadas? Em horário nobre, aos domingos, não havia destaque mais Fantástico.
A Cultura é, e sempre será, nossa, uma conquista de todos os brasileiros. Gostaríamos de uma resposta da Fundação acerca deste nosso “protesto” e reivindicação, esperando que prevaleçam o bom senso e a compreensão de que projetos como o Entrelinhas – e referências históricas como o programa Metrópolis – tornaram-se patrimônio imaterial. Extingui-los, sucateá-los ou menosprezá-los, dentro da programação da TV Cultura, é um desrespeito a nossos bens artísticos mais valiosos.
No aguardo de sua resposta, deixamos o nosso mais especial abraço, pondo-nos à disposição para o que precisarem – no intuito de continuarmos, todos, a nos orgulhar da trajetória histórica da TV Cultura.
Voltei, e saí da cama só para dizer para espalhar a notícia.
O Cínico deu na Folha, no sábado, dia 25 de fevereiro. Saiu lá uma resenha do Heitor Ferraz Mello, no Guia Folha de livros, discos e filmes. Olha só a coisa toda logo ali, abaixo.
*
*
Se eu fosse Cínico, quer dizer, se eu fosse você, pedia logo um exemplar do EU CÍNICO. E olha que o cinismo já está em todos os lugares. É só clicar em qualquer link abaixo e pedir.
Se preferir pode pedir seu exemplar direto comigo, que envio com uma dedicatória cheia de amor e cinismo. É só enviar um e-mail para luisrafaelmontero@gmail.com
E logo menos tem mais novidades cínicas por aí, por aqui, in everywhere.
Stay tuned. Porque eu vou, logo, de volta para a cama.
Na verdade não faz nem um minuto que levantei da cama, para fumar. Na verdade não é nem um minuto de cinismo. Uma rapidinha com os amigos. São cinquenta segundos. Menos que um minuto de silêncio. É um trecho do meu livro, do EU CÍNICO, lido (essa palavrinha, me lembra nome de hotel, Hotel Lido) por Felipe Valério, o autor do Hotel Trombose (taí a coisa de lembrar do hotel, pode ser, vai saber). E quem gravou na câmera que não é câmera é um iPhone foi a Fernanda Grigolin, da Publicações Iara.
Agora, então, um minuto de cinismo, que é melhor do que um minuto de silêncio.
Graças a Deus cheguei ao inferno. Desconfio que morri. Deitei, para dormir sei lá, e depois de horas, minutos, segundos terceiros quartos, de caminhada por uma longa estrada de terra, de areia, de algo que se pareça com essas substâncias naturais, ou que não tenham, em nada, a ver com ambas, ao redor apenas uma grande paisagem descampada, não sei se um deserto, não sei se um campo seco e vazio, me lembro apenas que o caminho era longo, longo, longo, como era longa a estrada, a estrada e o caminho repetitivo, a paisagem descampada descampada sempre a mesma, sem mudança, sem fim, sem meio, sem início, me fizeram caminhar, pelo que lembro caminhava, me movia isso é certo ou errado, ou me faziam caminhar, não lembro, de alguém, de alguma companhia companheiro, enquanto eu caminhava, rastejando, pululava, pululava?, pelo caminho, pela estrada que era longa, e longa, e repetitiva.
Cheguei, se é que desde o início inexistente, como o fim e o meio, dessa caminhada por esse longo caminho, havia um lugar para se chegar, logo cheguei no X, no centro, no alvo, no álvaro que é minúsculo porque não lembro desses nomes porque não lembro de você, uma grande porta, não sei bem se uma porta, ou duas, ou apenas um canal, um meio de sair de um determinado lugar e, transpondo-se a porta, ou algo equivalente repetente rima incompetente, chegar, quando há onde se chegar, se chegar for tão importante e imprescindível assim, assim como?, como assim?, a outro lugar, quer seja este outro diferente ou igual ao de antes, o lugar de onde deveria sair, se é que existe, ou existiu (as conjugações verbais têm me escapado da memória; a memória, permita o adendo, por sinal, sinal da cruz, sinal do intervalo é hora do recreio na escola, o Monte Sinal, começou a rarear, acho que é este o verbo, confundo, desde que encontrei e me deparei com a porta, depois de caminhar pela estrada longa), a necessidade da prática de tal ato: o de sair, o de chegar (estendo neste começo, que talvez seja o fim, ou bem o meio, com a certeza de sua paciência, pois aproveito, ou aproveitava de meus últimos momentos e lampejos de memória de lembranças de meus últimos momentos antes do último momento
Adentrei, então, a tal porta, chamei de porta, dei o nome, talvez o mude, e, por algum motivo, percebi no inferno, me percebi, no meu inferno, e, ao adentrar, deparei com o que havia para deparar: nada, as paredes não tinham, não eram paredes, e eram longas (o adjetivo que pareceu mais correto escapou) de apenas uma cor, e de cor nenhuma, e a memória rareando, rareando, no gerúndio, no gerúndio avistei apenas uma cor, não avistei cor alguma, era apenas uma cor e não era cor alguma a que tomava todo o ambiente, sem fim, como a estrada, como o longo caminho, tudo igual e repete, como a estrada, como o longo caminho, tudo igual e repete, e repete-se, e repito-me em pouco tempo, e a essa altura já tinha eu perdido qualquer noção ou conhecimento que um dia poderia ter experimentado e alcançado acerca do tempo, se é que um dia, noite, tarde, alguém tenha pulado a cerca do tempo e saboreado, do lado de lá e qual é o lado do lado de lá?, tal conhecimento (conhecimento, essa palavra não me é estranha, estranha, essa palavra não me é, é, essa palavra não me, lampejos que se vão, PUFF), as memórias, me-mó-rias – eu tento tentava falar, mas não podia, não sabia, ao menos, o que era falar, falar? -, se iam, iam indo, indo pelo longo caminho, pela estrada descampada e a paisagem longa, longa vida, VIDA! VIDA? tive eu uma vida e agora esse vazio repetindo, a ausência das coisas, a ausência de todos, dos outros, da terra, das lembranças, não lembro, e, por isso, posso interromper me interromper a qualquer momento, a qualquer momento deixarei de saber
Não ouço, não ouvia, nada, nenhum, eu sem minha voz agarrava, e me agarro, à voz que habita e ainda fica na minha cabeça, por dentro da cabeça, tentei escrever, mas não tinha algo branco, ou de cor qualquer, para deixar minhas letras, não há mais letras, não sou eu quem escreve, quem escrevo, não é a minha voz, não me lembro da minha voz, nem da minha aferética vó, vó-voz voz-vó, não há nenhum sofrimento maior ou menor ou igual a esse: ir-se-perdendo-na-ausência-de-tudo-de-nada (de nada, que vem, ou vinha, depois do obrigado), não lembro mais, pelo que me lembro fico aqui, sem cor, sem lembranças, vou me esquecendo, vou-me esquecendo, vou indo, pelo longo caminho, pela porta da ausência, pela ausência de tudo, inclusive do esquecimento, não lembro, pois até de não lembrar não me lembro, apagou-se tudo, a-pa-gou-se-tu-do, quase no fim, se é que o caminho tem fim, o inferno é longo, a estrada é a porta, apagou tudo, e tudo de novo, e repete, quase no fim, se é que o caminho tem fim, o inferno é longo, a estrada, a memória é algo tão raro, a rarear, rarear, é este o verbo?, o verbo do princípio
…é esquecer, apagar e esquecendo, e rarear, raras vezes utilizei, utilizei-me, de tal verbo, numa fraqueza sem dor, sem cor, sem existência, a não existência de antes, e do depois, a ausência de vida, de morte, de tudo, de nada, de céu, de inferno, de deus, de homens, de satãs, de manhãs, de pracinhas, de francesas, de maiôs, de iô-iôs, de mim, de você, de tudo que eu tanto queria lembrar só para esquecer agora e antes e depois mas não posso pois-estou-no-inferno, se é que posso estar na ausência, no inferno não sou eu, não fui eu mãe o João que matou o passarinho com o estilingue zás, sem saber como usar as vírgulas os soluços o respirar do texto pois-estou-no-inferno não estou e não há nada NADA!, quem nada é peixe quem pula é sapo. HA! TIM! BUM! Bunda!, lembro, pelo que me lembro, da palavra: bunda. BUN-DA. “Bum” (o som, e não como se escreve, se escrevia no português do dicionário pelo que me lembro, se é que lembro) e um biquinho, um beicinho surge nos lábios quase cerrados e projetados à frente, para trás que não seria – no inferno não sou não é, nada é na ausência -, uma gracinha! “Da” e a boca se abre espalhafatosa quase orgástica, não lembro do orgasmo do marasmo, pelo que me lembro, o que é, o que foi a tal bunda?, sinto falta da bunda, vai saber, mas não há o que saber, saber o quê, pois-estou-no-inferno, estou?, vai saber, saber o quê?, longo e repetitivo e vazio e ausente e sem existir, é assim que estou, nem para lá, nem para aqui, longo e repetitivo, sem nada, sem ninguém, sem mim, sem eu, sem eu em mim: um inferno, onde? no-cu-do-conde-onde-seu-pai-se-esconde
Olho para todas aquelas ou estas paredes, que talvez sejam uma, ou nenhuma nem uma nem zero nem tantas assim, e penso se penso, logo existo, desisto e já não penso em nada, nem no nada quase não penso nem na vírgula nem no caminho no longo no verbo na carne no inferno, onde?, não há como pensar, não existo logo, é longo, na verdade em verdade vos digo existo, mesmo sem pensar, ou pensando desse jeito assim ou assado ou cru ou bem-passado, sinto que existo, e dá para sentir mesmo sem sentir sem nada?, sei que existo, mesmo sem saber e contradigo, na contradição existo eu, mas não sou eu, eu não sou, existe isso tudo, o inferno existe, mas não é o inferno, não é inferno, não é, e repete, onde?, não há como pensar, não existo, não existe o vazio das ideias, de pensar, a ausência do vazio, de não pensar, a ausência da ausência, onde nada é, onde tudo é: ausente. Desisto, se existiu não consigo lembrar, nem do nada, nem dos dias em que contava e cantava sugar plum fairy, um dia dois dias três, e que dia é hoje?, hoje é que dia?, não lembro de tudo isso, não lembro nada, e o álvaro?, quem?, nem do nada, quem contava?, quem cantava?, sugar plum fairy sugar plum fairy
o inferno é assim ____________________________________ (e sem o traço embaixo), e repete
às vezes até o final, até o começo, pelo meio, e vai-e-volta-e-fica-parado-no-mesmo-espaço-tempo-sem-nada-ninguém-só-a-ausência-consumindo-consumindo-sumindo-indo-
Devo parar agora daqui a pouco o adeus o último adeus antes do próximo olá já que o agora e o depois são os mesmos iguais e não são nada nem ninguém nem vírgulas nem nada devo aproveitar os últimos resquícios finais e derradeiros lampejos antes que venham os mesmos que me trouxeram aqui se é que vim de algum lugar se é que estou se é que alguém me trouxe os mesmos que me fizeram andar pelo longo caminho e de novo se é que andei se é que era caminho o longo e o mesmo caminho antes que venham e levem de mim o resto de mim de quem de mi fá sol lá si dó ré mi em cima do piano tinha um copo de veneno quem bebeu morreu bebi será que morro eu morri devo aproveitar os últimos os primeiros passos dos pés no caminho longo caminho à porta de um lado para o outro para cá e do lado de lá numa valsa-sa valsa-sa
desisto
resta ainda um pouco de mim, rareando, rareando
uma espécie de relato que você não ouve e não lê que eu não digo e não escrevo não muito real com nada de imaginário repleto de incongruências e recheado de verdade mesmo sem existir (inclusive a verdade e a mentira já se escafederam agora mesmo com pressa nos rabos eu quase vi enquanto se iam, se foram), um relato de como cheguei (pelo longo caminho) ao inferno (entrei pela porta, percebi – ainda resta o que quer que seja necessário restar para que eu exista e perceba o que quer que se há para perceber: nada), e o que vi e senti por lá, por aqui, e as que não vi, os olhos também se foram, pelo menos não os vejo mais, menos multiplica tira a raiz quadrada e deixa apenas a última vírgula, preciso aproveitar os últimos resquícios finais e derradeiros lampejos e a última vírgula, vírgula do inferno
Por algum tempo, não há como saber se muito, se pouco, perpétuo, permaneceu em pensamentos, deixando palavras; os últimos resquícios, do eu, da existência, rareando, para depois se consumirem e sumirem, levando ele, levando quem? e voltarem, juntos, separados, acompanhados, solitários, ao mesmo início, que talvez fosse realmente o fim ou, até mesmo, o meio, como uma nuvem de fumaça, se confundindo com a própria cor, e com a ausência da cor, do seu inferno, inferno de quem?; ainda divagando, sem sentido, como tudo era, e foi, e é, e continuará sendo, até que fosse consumido pelo próprio inferno, num alzheimer cíclico esquecido, e pela ausência, a do inferno, e a ausência de quem? E repete. Graças a Deus cheguei ao inferno.
Foi ontem num daqueles raros dias daqueles de sol daqueles que resolvo sair mesmo com um sol daqueles. Foi No Parque. No Parque e com um sol daqueles? Ah tá. Calma lá calma aí, tem vídeo para provar. Olha aqui. Vivo na cama sim, que fazer. Mas tem daqueles dias raros que saio, da cama.
No Parque?
É. No Parque, um encontro bem foda, coisa da Publicações Iara, do Aleksandro Costa e da Caroline Ramos. E ainda ficou mais foda porque o Felipe Valério, o cidadão estranho que escreveu Hotel Trombose (classicamente foda), escreveu um texto inédito e mandou para eu ler. Eu li. Tem até vídeo para provar.
E com um sol daqueles?
A gente estava na sombra. Olha só. O vídeo, que é da Fernanda Grigolin, tá logo ali para provar.
Resolvi escrever. E resolvi, também, publicar por aqui o que escrevi. Recebi um convite, daqueles bem fáceis e prazerosos de aceitar, e aceitei porque sou fácil e gosto do prazer que dá.
O Convite veio da querida-multi-talentonsa Fernanda Grigolin, aquela moça que vai e faz e não fica esperando (do jeito que eu queria ser, mas aí olho para a cama, e me jogo e volto a viver, na cama que é o meu lugar, e não estou reclamando, só contei). O Convite era escrever algo baseado numa das fotos de Grigolin. A minha foto foi bem essa aí, ali ó. E meu texto deu no conto É isso que dá para escutar. Olha só.
É isso que dá para escutar
Já disse que não sei nada e o nada que sei eu já disse. Não escutei. Quando saí cheguei aqui e a coisa toda assim. A menina desse jeito encolhida rasgada e não adianta até perguntei e a menina coitada não fala e só fica esse olho esse nada perdido na cara. Bem aqui no meu portão. Não sei se foi bem aqui, isso que aconteceu com a menina. Coitada. Tem que perguntar para o marido, é tem um marido um filhinho e essa coisa toda de família dentro de casa. Bem ali no portão da frente, é aquele quebrado. Não sei bem se foi ali. Não escutei. Essas coisas dentro da casa dos outros não tem que escutar, não dá. E não adianta o seu guarda gritar e latir desse jeito. Com essa coisa de família dentro de casa não dá para escutar. Não adianta. O marido só manda e ainda tem as crianças para-lá-e-para-onde e o marido reclama e ainda tem a cozinha o almoço gritando e o marido ainda quer que responda ou vou ficar aqui falando sozinho? É isso que dá para escutar, seu guarda. E mais nada. Que vou eu saber do marido do lado de lá, se ele fala sozinho se a menina coitada consegue escutar? Sei que tem um filhinho e só isso que sei. Escutou? É o almoço avisando as crianças não param e o marido latindo e falando, sozinho. É essa coisa de família, aqui dentro. É isso que dá para escutar.
*
Convite, o livro da Grigolin, ficou lindão e ainda tem uns escritores fodões que participaram da festa: Felipe Valério, Adrienne Myrtes, Pedro Tostes, Gisele Werneck, Aleksandro Costa e tem mais gente. Vale a pena dar uma olhada nessa belezura e encomendar o seu. É só acessar fernandagrigolin.com
E logo menos, quando eu resolver, volto aqui com mais coisa inédita, com mais coisa para falar, mesmo que não tenho muito o que falar. Eu volto. Só preciso resolver quando.